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ODISSÉIA A QUINTINO | ![]() |
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Felipe e José Miguel eram mais do que colegas: eram quase irmãos. Cada um com
13 anos, sendo Felipe mais velho alguns meses, já que fazia aniversário logo
no início de janeiro, e que, naturalmente, sugeria de bate-pronto o que fazer
para matar o tempo, quando não estavam na escola:
- Vamos bater uma bolinha?
- Mas claro! – respondia José Miguel, numa afirmação tão lógica, como se
Felipe perguntasse se o macaco queria banana.
Flamenguistas fervorosos, a ponto de usarem o manto sagrado até o negro que
acompanhava o rubro virar cinza, um belo dia, Felipe sugeria ao amigo:
- Zé Migué! – era como ele o chamava – Vamos a Quintino?
- Pra Quintino, Lipe? – como ele o chamava também. - Fazer o quê em
Quintino?
- Na casa do Zico!
Isso soou aos ouvidos de Zé como se Felipe sugerisse a ele uma viagem à Lua, e
sem volta, que provocou nele um misto de alegria com temor. Temor, de não fazer
idéia de onde seria Quintino – “perto de Caxias” pensou num segundo, como
se todo lugar distante de Ipanema fosse perto de Caxias, lugar mais conhecido
por Zé Miguel pelo fato de sempre ser mencionado nas páginas dos jornais
cariocas, pois tratava-se de um garoto que lia jornais, por querer se manter
sempre atualizado. Alegria, de poder ver em carne e osso o ídolo que eles só
conheciam de jornais, revistas esportivas e pela televisão. Sequer o tinham
visto bem de longe, das arquibancadas do Maracanã, lazer não muito bem visto
pelos pais de ambos pelo fato de ser tumultuado e difícil de estacionar o carro
com segurança, sem contar o perigo de assalto nas proximidades do estádio,
principalmente em jogos com casa cheia. Zé estava relutante:
- Como é que você sabe que o Zico mora em Quintino? – indagou.
- Ô Zé Migué! Você não tá cansado de ouvir jogo pelo rádio? Os locutores
apelidaram ele de Galinho de Quintino. Quintino é um bairro do subúrbio do
Rio!
- E por quê Galinho?
- Galinho? Sei lá.... deve ser por que é brigador, pelos lances, pela bola.
- E você sabe onde fica Quintino?
- Nunca fui, mas quem tem boca vai a Roma.Pra Quintino, então... olha só,
vamos lá em casa. Eu tenho um mapa dos bairros da cidade do Rio de Janeiro.
No caminho para a casa de Felipe, Zé Miguel pensava num meio de convencer Lipe
a desistir da empreitada. Eles, que já arrumaram tanta confusão em tão pouco
tempo de vida. De Ipanema, onde moravam, a Quintino, provavelmente seriam umas
três horas de ônibus!
- Ô Lipe, essa história de ir a Quintino é furada. A gente nem sabe onde é,
nem como chegar.
- Zé Migué, deixa de ser frouxo! Olha aqui no mapa: Quintino Bocaiúva é uma
estação de trem perto mais ou menos do Méier! A gente pega o 154 aqui,
saltamos na Central do Brasil e então pegamos o trem.
- Trem?
- É, trem!!! Carioca que se preza tem que andar de trem, pelo menos uma vez,
aqui no Rio! – filosofava Lipe.
- Mas Lipe – tentava Migué convencer o amigo de desistir, gastando seus últimos
cartuchos – e se a gente se perder?
- Olha Zé Migué – falava Lipe, num tom de ralha – deixa de ser criancinha,
pô! É o nosso ídolo – disse, apontando para um poster de Zico, colado
cuidadosamente na parede do quarto – Se você não quiser ir, tudo bem. Eu vou
sozinho. Depois não vá se arrepender. Vou pegar um autógrafo dele só pra
mim, ouviu?
Zé Migué, companheiro de tantas aventuras com Lipe, ouvia. Se deixou
convencer. Valia a pena encarar o trajeto Ipanema-Quintino-Ipanema pra conhecer
o grande ídolo, responsável por lhes dar tantas alegrias até então. Uma
criatura que não tinham a certeza se era mortal como eles, e talvez, no mais
profundo de seu subconsciente, o objetivo dessa proposta de Lipe seria até
esse: saber se Zico era real. Lipe ainda falou mais, e tanto insistiu que
acabaram por apertar as mãos e combinaram que sairiam no dia seguinte, às nove
horas da manhã.
Zé Migué, mais racional, não conseguiu dormir direito, preocupado com o que
poderiam enfrentar em termos de dificuldade durante a viagem a Quintino, bairro
conhecido pelo mundo graças ao grande atacante rubro-negro. Lipe sonhara que
participava de uma pelada, disputada num campinho de terra batida de Quintino,
tendo como companheiro de time o eterno amigo Zé Migué e um certo camisa 10 da
Gávea, que nas horas de lazer entrava nesse campinho, a lhe lançar bolas que,
obedientemente, tinham sempre como destino o fundo das redes.
Às nove e dez da manhã a campainha da casa de Lipe soara.
- Felipe! José Miguel chegou!
Lipe reunia alguns trocados para a viagem, economizados do lanche não feito no
dia anterior, na escola, quando lhe foi comunicada a chegada do amigo.
- Pensei que você tinha desistido.
- Nem pensar! Pra conhecer o Zico, vou até a China!
Riram ao mesmo tempo e partiram, não sem antes Lipe comunicar à mãe:
- Mãe! Vou jogar bola com o Zé Migué! – mentia.
- Tá. Não chegue atrasado pro almoço! – pedia a mãe, que, como toda mãe
zelosa, sempre preocupada com a alimentação e saúde dos filhos.
- Não vou chegar! – mentia novamente. Fui!!
Com as camisas rubro-negras nos corpos (ambas com números 10 às costas), os
dois amigos se dirigiam à Visconde de Pirajá, onde apanhariam o ônibus, cujo
ponto final constava a Central do Brasil. Zé ainda advertiu Lipe:
- Lipe! Nós vamos voltar pra casa bem tarde e nossas mães nos deixarão de
castigo por isso!
Lipe não se incomodou:
- Ah, Zé Migué! O Zico vale a pena. Depois que conhecê-lo pessoalmente, minha
mãe pode até me deixar um ano de castigo! – exagerava.
No caminho do ônibus recordavam os lances maravilhosos protagonizados por Zico
que tanto os deliciava: aquele gol de falta contra o Uruguai na sua estréia na
seleção brasileira; o golaço contra a Itália, também pela seleção, na
final do Torneio Bicentenário dos Estados Unidos “e de canhota!” lembrava
Lipe; o outro contra o Botafogo, depois de driblar quase toda a defesa
alvi-negra, que tinha até o Marinho Chagas. Fizeram comparações com Pelé,
logicamente colocando o 10 do Santos em segundo plano. Que Zico iria arrasar na
sua primeira Copa, a da Argentina.
- Imagina – sonhava Lipe – se o Flamengo compra o Roberto Dinamite pra fazer
dupla de ataque com ele?
O Galinho era assunto para uma viagem Rio-Florianópolis, que dirá
Ipanema-Quintino. Não havia maneira melhor dos garotos curtirem a odisséia
urbana. Já dentro do trem, onde entraram rapidamente, fugindo de olhares
sinistros de moleques de rua da idade deles que perambulavam pela Central, Zé
Migué lembrou, conscientemente:
- Será que vamos encontrar o Zico em casa, Lipe?
Lipe respondeu numa certeza como se fosse totalmente informado da rotina pessoal
do jogador:
- É claro que ele estará em casa, cara! Então o Flamengo não disputou um
amistoso ontem, com ele em campo? Depois dos jogos os clubes dão folga aos
jogadores, e nas folgas o Zico fica em casa com a família. Ele é muito “família”.
Após ouvir a tranquilizadora afirmação de que a viagem não seria em vão, Zé
Migué voltava a prestar atenção em cada estação onde o trem parava, para se
certificar de que eles desembarcariam em Quintino.
- É a próxima, parceiro! – Lipe informava, enquanto conferia um mapa feito
à mão das estações do trem, provavelmente copiado de um antigo Guia Rex do
pai.
Enquanto mastigava amendoins comprado de um ambulante que circulava pelo
interior do trem, Zé Migué era só expectativa e, já se levantava junto com o
amigo em direção à porta de saída do trem, ajeitando a camisa rubro-negra.
Quando o trem parou na estação de Quintino Bocaiúva e abriu suas portas, os
dois meninos sentiram um frio na espinha. Era como se a porta do vestiário do
Maracanã estivesse abrindo para que os dois galgassem os degraus que os fariam
pisar no gramado. Saíram e pararam. Olharam os arredores, Entreolharam-se.
Tomaram fôlego e partiram decididos e felizes, como se o craque estivesse à
espera deles.
- Qual o nome da rua onde ele mora? – Lembrou-se de perguntar Zé Migué.
- Não sei... – respondia Lipe – A gente pergunta por aí. Imagine se o
pessoal do bairro não sabe onde é a casa do Zico?
Zé preferiu se calar, embora tivesse a vontade de perguntar “como é que
fazemos essa viagem toda sem saber direito o nome da rua do cara?”. Depois de
uma hora andando em círculos pelo bairro, cansados e com sede, resolveram tomar
um refrigerante num bar que ficava na praça do velho coreto, onde alguns
moleques disputavam um racha. Contiveram a vontade de perguntá-los se podia um
entrar pra cada lado, quando Lipe lembrou:
- Cara... ontem eu li numa breve biografia do Zico, no Jornal dos Sports, que
dizia que ele nasceu e foi criado aqui em Quintino, se não me engano na Rua
Lucinha Barbosa.... é isso!! Lucinha Barbosa, Zé Migué! É esse o nome da rua
da casa do Zico! Agora é só perguntar onde fica essa rua que logo logo
estaremos vendo nosso ídolo em carne-e-osso! Vamolá!
Disse e foram. Resolveram perguntar para alguém que deveria conhecer bem o
bairro.
- É Lucinda Barbosa. – esclareceu o rapaz da banca de jornais. – Vocês têm
que ir para o outro lado da estação.
Já certos de que não seria tão fácil assim conhecer o ídolo, pensaram por
um segundo em desistir. Mas quando teriam uma outra oportunidade, se é que
teriam? Um jogador como Zico, de um clube grande, viaja bastante. Ainda mais que
a seleção estava para disputar as eliminatórias para a próxima Copa, e ele,
com certeza, seria convocado. Ficaria dificílimo encontrá-lo no Rio por um bom
período. Então, indicados pelo jornaleiro, marcharam rumo à Rua Lucinda
Barbosa, conseguindo chegar ao destino perguntando a oito moradores do bairro
durante o trajeto. Incontáveis minutos depois, já sem a certeza de que
saberiam o caminho de volta, finalmente os dois garotos se viram no início da
rua onde o maior jogador da história do Flamengo nascera há vinte e quatro
anos. Perguntaram a um senhor de idade que descansava num velho banco de madeira
à porta de uma casa humilde “onde é a casa do Zico, moço?” O velho olhou
calmamente para aqueles dois meninos e respondeu com doçura na voz:
- Olha meninos, a casa dos pais dele é aquela ali – apontando para uma casa
com um portão de ferro preto, já necessitado de uma demão de tinta – mas,
provavelmente vocês não o encontrarão aqui, hoje.
- Por quê? – quis saber Lipe, já com uma pontinha de decepção.
- Por que o Zico se mudou faz tempo, depois que se casou com a Sandra. Ele só
vem aqui uma vez por mês, pra ver a família, isso quando não está viajando
ou se concentrando com o Flamengo.
- E onde ele está morando agora?
- Se não me engano – disse o velho, pensativo, olhando para o céu – ele
está morando em Ipanema, lá pra Zona Sul.
Lipe ouviu, muito triste, abaixou a cabeça e agradeceu. Sem coragem de olhar
para Zé Migué, tomou junto com o amigo o rumo para a estação de trem que os
levaria de volta à Central. A frustração dos dois só não foi maior que a do
próprio Zico quando perdeu um pênalti na decisão da Taça Guanabara contra o
Vasco, defendido pelo Mazaropi. Ficaram calados por um bom tempo, quando já
dentro do ônibus, Lipe, indignado, quebrava o silêncio:
- Pô, Zé Migué, que mancada! – revoltava-se. – como é que eu ia saber
que o Zico tá morando no mesmo bairro da gente?? Se vacilar é a poucas quadras
do nosso prédio!! Se a turma sabe disso..... a culpa é desses locutores, que não
atualizaram o apelido dele!!
Zé Migué permanecia calado, talvez por falta de forças devido à fome e ao
cansaço da viagem, mas lúcido o bastante para concluir silenciosamente que
“O Galinho de Ipanema” seria um apelido sem sentido, para quem nascera, fora
criado e dera os primeiros chutes num bairro de outro nome.
A tarde começava a dar lugar à noite. As primeiras luzes da cidade começavam
a aparecer. Ao chegar em casa, Lipe, já recuperado da decepção, começava,
numa atitude detetivesca-precoce, a pesquisa na lista telefônica e de endereços,
procurando por um cidadão chamado Arthur, com sobrenomes Antunes e Coimbra.
Se você clicar no Zico,
entrará no seu site oficial!