MARILYN MONROE

Eu já estava quase indo embora. Uma hora e meia, e já tinha visto e revisto milhares de vezes todas as perguntas que eu faria a ela. No exato momento em que me levantei da cadeira, decidido e aborrecido, a avistei de longe se aproximando, usando um vestido branco de seda, com aquele andar sensual e um sorriso
incrivelmente amável, de dentes impecáveis, magníficos, que pareceu iluminar o saguão do shopping semiescuro onde marcamos a entrevista. E aquele sorriso valeu mais que um bilhão de educados pedidos de desculpas pelo atraso. Marilyn Monroe é tão fascinante, e chegou tão simpática, tão sensual,
tão loira, que se tivesse que esperar sentado um dia inteiro o teria feito. Um beijo de cada lado do rosto e um abraço tão gostoso que
pude sentir em meu peito as batidas de seu coração. Dei-lhe o buquê de uma dúzia de rosas vermelhas, ela abriu mais ainda aquele sorriso fantástico e me beijou o rosto novamente. O incrível e sensacional é que o tempo todo ela não parava de sorrir. Puxei a cadeira para ela e Marilyn se sentou como uma rainha que estivesse sentando no trono real. E ela não é uma mesmo?
- Marilyn, os diamantes são mesmo os melhores amigos de uma garota?
- (Sorrindo) Ah, fofo.... olha eu nunca fui muito de ostentar jóias assim. Tinha essa imagem fantasiosa de mulher recheada de jóias, parecendo uma árvore de Natal
que hoje em dia chamam de "perua", não é mesmo? (gargalhando
sensualmente), mas tinha tanta coisa na vida que eu achava que tinha muito mais valor. O amor das pessoas, por exemplo. Isso, não tem preço que pague. Nunca terá.
- Vejo que você não está usando nenhum, mas seu sorriso maravilhoso brilha mais que qualquer diamante do mundo... (não resisti!)
- Ah, querido... obrigada!! Sempre achei que o sorriso seria o melhor cartão de visitas de alguém, então sempre cuidei para que meus dentes fossem muito bem tratados. Sempre me cuidei fisicamente, jamais tive problemas de peso, por exemplo. Sempre procurei descansar e me alimentar bem e sem excessos. No meu tempo ser bonita era muito mais difícil do que hoje em dia!
- Quais eram suas medidas?
- 1,66 metro de altura, 94 centímetros de busto, 61 de cintura e 89 de quadril.
- Você não acha que havia uma preocupação excessiva com o físico no início da sua carreira, e quando ela deslanchou não era o caso de se aperfeiçoar como atriz, ou mesmo cantora?
- Bem, talvez eu tivesse muito mais tendência para representar do que para cantar. Acredito que teria sido importante frequentar um curso de atores na época, mas eu atuava usando mais a intuição, e se você tem uma boa intuição pode valer muito mais do que milhares de cursos. E como eu estava na mídia, termo que vocês usam atualmente, é importante que se cuide do físico. É nosso ganha-pão. Quem contrataria uma atriz ou ator desleixados fisicamente?
- Tem razão. Você trabalhou com Dean Martin em "Something's Got to Give" e era um papel dramático.
- Em "Something" eu achei que já estava preparada e era uma artista experiente o suficiente para fazer o papel. Dean Martin me deu muito apoio nessa época, e mesmo com a fama de conquistador, acho que sem segundas intenções
(risos). Mas lamentei muito não poder terminar o filme, teria sido um tipo de divisor de águas em minha carreira.
- Como apagar o rótulo de "lourinha engraçadinha e patetinha?"
- Isso mesmo!!! (risos). É claro que em meados dos anos 50 eu já queria me livrar desse rótulo, ainda que minha personagem em
"Some Like It Hot" de 1959, com dois monstros sagrados do cinema como Tony Curtis e Jack Lemmon, tinha a mesma personalidade das minhas personagens dos filmes que ajudaram a me lançar no cinema, mas valeu pelo prêmio do Golden Globe de
"Melhor Atriz em Comédia", mas eu queria seguir seriamente a carreira de atriz, então fui para Nova York, para estudar na escola de atores de Lee Strasberg.
- Marilyn, o fato de você tentar ser feliz de qualquer maneira em seus três casamentos foi uma consequência da sua carência afetiva em tempos de criança/adolescente e busca incessante da felicidade?
- Às vezes fazemos coisas sem perceber direito no que estamos nos metendo
(risos). Infelizmente não tive a presença de meus pais em minha vida, e cheguei a morar em orfanatos. Então me casei pela primeira vez com Jimmy Dougherty, que era meu namorado, mas nessa época começava meu trabalho como modelo e ele pediu que optasse entre o casamento e o
trabalho. Com
Joe Dimaggio, meu segundo marido, as coisas também não
foram muito diferentes.
- Foi exatamente quando o "furacão Marilyn Monroe" surgiu e depois arrebatou os corações americanos...
- Quase! (sorrindo sempre) Tingi meus cabelos de loiro
(originalmente eram castanhos claros) e meu nome artístico virou Marilyn Monroe, cujo sobrenome adotei de minha avó
(o nome verdadeiro de Marilyn era Norma Jean). Mas demorou mais um pouquinho para arrebatar os corações americanos. Assinei contrato com a Fox
(20th (Twentieth) Century Fox um dos grandes estúdios de cinema norte-americanos) e aí realmente iniciei minha carreira no cinema.
- Além de sua beleza fascinante, uma das coisas que conquistaram os americanos também foi sua
incrível mistura de aparente ingenuidade e verdadeira sensualidade.
- Talvez, querido. Os produtores me davam esses papéis de loira bonita e patetinha como vc disse antes
(rindo), mas nessa época filmei
"Niagara" em 1953, onde tive um papel dramático, e isso ajudou um pouco a descolar esse rótulo de mim.Vivia uma nova fase na carreira.
- E no mesmo ano um filme mais ao seu estilo, Gentlemen Prefer Blondes (Os homens preferem as loiras).
- Sim, dizem que foi meu filme definitivo, o fiz com uma atriz consagrada, Jane Russel. Dizem também que é um dos melhores de minha carreira.
- Foi por isso que comecei citando a famosa cena, uma das maiores do cinema, dos
"Diamantes".
- Ah, mas na verdade não acredito nisso, (risos), nem mesmo que os homens prefiram
tanto assim as loiras, senão o que seria das morenas?
(risos)
- Talvez os homens não prefiram as loiras tanto assim, mas o que você acha de ter sido escolhida como a musa do universo gay?
- Ah!! (ri bastante) Olha me sinto lisonjeada na verdade, sabe? Nunca tive preconceito nenhum, apesar de ter sido sempre heterossexual, mas são filhos de Deus como nós, merecem respeito e carinho. Talvez eles me escolheram como musa pela minha imagem de pessoa alegre, e eles são também, então fico feliz com isso.
- Outra de suas famosas cenas no cinema foi a de "The Seven Year Itch" (O Pecado Mora ao Lado, 1955) do vestido branco levantado pelo vento da grade do metrô. É verdade que você estava pronta para filmar quando descobriram que você estava sem a calcinha?
- (Rindo muito) Sim!!! (continuando a rir). Eu gostava
de ficar assim, sabe? E era assim que eu dormia! Foi necessário um empréstimo de última hora de uma das assistentes de
produção.
- Bem, mas isso não devia ser embaraçoso para você. Afinal de contas a capa da primeira edição da famosa revista PLAYBOY, de 1953, era nada mais nada menos que Marilyn Monroe!
- Uma honra para mim sem dúvida, apesar de que eu ainda não era "Marilyn Monroe"! Mas não se esqueça de que em "Something's Got to Give" fiz a primeira cena de nu da história dos estúdios americanos, nadando numa piscina, um escândalo para a época!
- Continuando, o dramaturgo Arthur Miller, seu terceiro marido, escreveu o papel de
"Roslyn Taber" para o filme "The Misfits", de 1961, especialmente para você. O que significou esse filme?
- Clark Gable e Montgomery Clift trabalharam comigo nesse drama. Eram dois atores consagradíssimos e foi uma honra para mim. O filme não foi um sucesso estrondoso, mas nós três recebemos críticas favoráveis. No entanto foi o último filme completo em que tanto eu quanto Gable, a quem eu admirava muito, atuamos, e isso ficou um pouco triste, era quase minha despedida definitiva do cinema.
- Logo depois houve a repercussão do seu caso com o Presidente dos Estados Unidos na época, John F. Kennedy....
- Bem... (pela primeira vez fica séria) Um presidente de uma nação, principalmente dos EUA, é muito visado. Uma atriz hollywoodiana também. Então certas coisas não tem como colocar pano rápido, principalmente numa relação como duas pessoas assim. Já naquele tempo os paparazzi e revistas sensacionalistas de fofocas exploravam a vida pessoal das celebridades. Mas eu sabia que John não queria nada sério comigo, apenas me via como um objeto sexual. Deixar a vida familiar com a esposa e os filhos pela glamourosa atriz teria sido um verdadeiro escândalo, mas Jacqueline suportava o adultério constante de John Kennedy. Gostei realmente dele, me iludi por alguns momentos, éramos carentes do amor verdadeiro, mas tudo terminou logo depois que cantei
"Feliz Aniversário" para ele naquela festa do 45º aniversário dele no
Madison Square Garden, em Nova York, um pouquinho tocada pela champagne.
- Nos seus últimos anos na terra você já estava viciada em álcool?
- Além do álcool, mais precisamente champagne, eu também tomava tranquilizantes, barbitúricos e comprimidos para dormir, todos em muitas doses e todos altamente
fortes, como se fossem drops. Eu era uma artista que não conseguia lidar com o constante assédio do público e críticas da imprensa, e precisava sair um pouco dessa realidade, infelizmente foi dessa forma muito química. Mas se você não se importa, querido, preferia não falar nisso...
- É que ainda existe uma polêmica relativa à sua morte, se foi overdose, suicídio, assassinato...
- A verdade era que eu amava viver. Não gostaria de ter ido do jeito como fui. Mas, me perdoe, querido... falar nisso é tão triste... deixemos que a dúvida perdure, tá bom?
- Ok Marilyn. Creio que os fãs realmente verdadeiros honrariam essa sua
decisão. Mas há pouco tempo entrevistei outro ícone cultural como você, James Dean. Você chegou a conhecê-lo pessoalmente?
- Ah, não, infelizmente. Talvez tivesse conhecido Jimmy na ocasião da pré-estréia de Vidas Amargas, seu primeiro filme de destaque. Mas senti muito quando esse rapaz tão jovem morreu no acidente de carro. Acho que isso causou comoção não só em Hollywood, mas nos Estados Unidos, ou no mundo inteiro. Lamento não ter conhecido James Dean.
- Pra finalizar, o que restou de bom de Marilyn Monroe na terra?
- Muito carinho, reconhecimento, aplauso dos fãs... creio não ter deixado raiva ou mágoa em ninguém, então pude partir feliz para outra vida. Joe Dimaggio, meu segundo marido, enviou
seis rosas vermelhas para a minha sepultura três vezes por semana, durante
vinte anos. A grande cantora Madonna se declarou minha admiradora e isso é de um extremo privilégio para mim, assim como a arte de Andy Warhol. Não só eles, mas a legião de fãs que cultuam minha imagem, e estou com meu coração feliz por ter passado para toda essa gente uma imagem positiva. E te agradeço também, meu querido, por
você ajudar a manter essa chama acesa. Um beijo no coração de todos.
Marilyn sorri para mim pela última vez, se despedindo e eu fico alguns instantes atônito, sem acreditar que passei esse tempo todo com
essa mulher deslumbrante. Quando volto a si, olho para a mesinha e percebo que a musa esqueceu o buquê de flores. Olho para longe à sua procura, vejo um vestido branco subir
na escuridão, impulsionado por um vento e ele flutua sozinho, subindo, subindo, até sumir...