O ESQUEMA TÁTICO DO CARROSSEL HOLANDÊS
Graças a alguns visitantes, que tive a
honra de receber no site, concluí que é inevitável deixar de dedicar uma página
especial sobre o esquema tático adotado por Rinus Michels na época. Serei
sincero: era tão sigiloso como é a fórmula da Coca-Cola. É difícil
desvendar com precisão a tática do Carrossel, até mesmo para os especialistas de
plantão. Se você fizer uma busca no Google aparecerão várias versões.
Passaram-se mais de 30 anos e eu gostaria muito de ver uma explicação plausível
para o fato. Creio que nem o saudoso João Saldanha, um dos maiores conhecedores
de futebol que já vi em todos esses anos, teria paciência para isso.
Mas tentarei dar uma explicação para o fato sem querer ser melhor analista que
alguém, mas como autor desse site eu gostaria humildemente de expor com
franqueza a minha versão do fato.
A NUMERAÇÃO: desde a primeira Copa do Mundo na qual os jogadores tiveram
nas costas de suas camisas os números correspondentes à sua posição em campo, em
1950, você constatará que
Ademir de Menezes, centroavante
brasileiro,
usava o número 9, habitual para o homem de sua posição, e até hoje a numeração é
a tradicional, vide Ronaldo, Luís Fabiano, etc. Os holandeses foram os pioneiros
em usar a numeração totalmente diferente da correspondente à sua posição, tanto
que o ponta-direita Rep, que teoricamente deveria usar o número 7 (como
Garrincha, Renato Gaúcho, etc.) usava o número 16. Isso confundia os adversários
de certa forma. Antes de Jongbloed, você tinha visto um goleiro usar o número 8
em sua jaqueta? Mas você verá um vídeo no You Tube da Copa de 1958 com Garrincha usando a camisa
11. Tentavam os brasileiros confundirem os adversários também? Existem duas versões para esse fato:
A primeira é dada por Zagallo, que não garante, mas tem uma explicação para a
numeração dada às camisas na Copa da Suécia: "- Havia uma numeração nas malas
com que viajamos. Me lembro que me deram a mala com o número 7. A do Pelé era a
10. Os números das camisas seguiram os números das malas."
E uma segunda que os dirigentes brasileiros não enviaram a numeração da camisa
dos jogadores em tempo hábil e coube à FIFA escolher e eternizar a camisa 10
para Pelé, que foi o único a ter a numeração correspondente à sua posição em campo.
A MARCAÇÃO:
a pressão da Holanda se dava já no campo do adversário.
Geralmente havia um número maior de holandeses cercando um oponente que
estivesse de posse da bola, então iriam 2 ou 3 para cercá-lo; se eram 3
adversários, 4 ou 5 laranjas o cercavam, e assim por diante, e incrivelmente
nunca deixavam as linhas desguarnecidas. Dava a impressão que jogavam mais de 11
na Seleção Holandesa e que se multiplicavam. O volante Jansen tinha como uma de
suas principais funções cobrir o companheiro quando este se deslocava de sua
posição original para auxiliar um outro companheiro, por isso que você poderá
ver 3 holandeses ao mesmo tempo marcando um adversário. Às vezes parecia que
surgia um holandês "do nada" quando um adversário tentava troca de passes,
roubando-lhe assim a bola e iniciando um contra-ataque.
Além da cobertura, Jansen também auxiliava na marcação e no apoio, e foi uma das peças fundamentais do Carrossel. Apesar da sua estatura (era o mais baixo da equipe) compensava com um fôlego e uma disposição fora do comum.
Os holandeses do Carrossel de 1974 foram os maiores "ladrões de bola" que puderam ser vistos numa equipe até hoje.
AS TROCAS DE POSIÇÕES:
eram realizadas principalmente a nível vertical,
como vemos em muitas equipes atuais: entre defensores e defensores, atacantes e
atacantes e meio-campistas e meio-campistas, ou seja, o lateral-esquerdo teria
que saber jogar também pelo lado direito, pela zaga central, na cabeça de área,
assim como o extrema-direita qual centroavante ou mesmo pela esquerda e o
meia-esquerda como volante, e assim por diante.
O (teoricamente) lateral-esquerdo Krol também concluía em gol, assim como o
lateral-direito Suurbier, tanto como Neeskens, meia-atacante, Rep e mesmo Cruyff
ajudavam na defesa. Veja alguns jogos da Holanda na Copa de 78 no You Tube, na
qual atuaram alguns sobreviventes do carrossel. O então central Haan de 1974
jogou no meio de campo no Mundial da Argentina e assinalou dois fabulosos gols
em tiros de fora da área. Concluímos, então, que todos os membros do Carrossel
estavam habilitados a defender e atacar, como dita o futebol moderno que a
Holanda antevia há mais de 30 anos.
A LINHA DE IMPEDIMENTO:
a defesa fazia a famosa linha de impedimento.
Jamais o central ou um dos laterais, mesmo o líbero ficavam atrás da linha,
então isso forçava o adversário a ficar em offside. a linha de impedimento
funcionava precisa como um relógio suíço.
Para formar o Carrossel, a Holanda teve sorte em contar com jogadores fabulosos
na geração dos anos 70 e dotados de excelente preparo físico para a empreitada,
e também a Seleção era formada por jogadores de times de grande rivalidade como
o Ajax e o Feijenoord que nesse Mundial tornaram se perfeitamente unidos em
busca do êxito maior. Mas há de se louvar a inteligência de Rinus Michels em
arquitetar esse ousado e inovador plano tático e também dos jogadores holandeses
ao executá-lo, como num xadrez humano, e de ambos para concordarem. Esse esquema
de todos atacarem e todos defenderem foi batizado de "Futebol Total".