A BATALHA FINAL

HOLANDA 1 X 2 ALEMANHA OCIDENTAL

7 de julho de 1974 - Olimpiastadion, Munique


HOLANDA: Jongbloed, Suurbier, Haan, Rijsbergen (De Jong) e Krol; Jansen, Van Hanegen e Neeskens: Rep, Cruyff e Rensenbrink (René Van der Kerkhof).

Técnico: Rinus Michels



ALEMANHA OCIDENTAL: Maier, Vogts, Shwarzenbeck, Beckenbauer e Breitner; Bonhof, Hoeness e Overath; Grabowisky, Muller e Holzeinbein.

Técnico: Helmut Shöen

 

Cartões amarelos: Vogts, Van Hanegem, Cruyff,

JUIZ: Jack Taylor (Inglaterra)

O dia 7 de junho de 1974 é uma data inesquecível para o futebol holandês. 

 

Era a primeira vez, após dez Copas do Mundo, que a Holanda chegava a uma finalíssima para a disputa do título mundial. Era a favorita e tinha a opinião geral a seu favor. Logo nos primeiros instantes da partida, exatamente aos dois minutos, após vários passes trocados pela laranja mecânica numa tentativa de enervar os alemães ocidentais promovendo um "olé", Cruyff penetra na área, perseguido por Vogts, sua sombra, e sofre pênalti. O árbitro inglês Jack Taylor não quer nem saber que são apenas 2 minutos de jogo: assinala acertadamente a marca fatal. Johan Neeskens, camisa 13, batedor oficial de pênaltis e o artilheiro dos momentos difíceis, chuta de pé direito e vence Sepp Maier à meia altura, para o conforto das esposas dos jogadores holandeses, presentes com seu apoio, no Estádio Olímpico de Munique, marcando então seu 5º gol na Copa. 

 

Holanda um a zero. O que muitos previam começava a se tornar realidade. Mas o placar parcial a seu favor parecia ter dado uma tranqüilidade excessiva à equipe holandesa, inexperiente em finais de Copa, jogando contra uma equipe competente, que estava atuando em sua casa e com o apoio incessante de sua torcida. Os alemães ocidentais, orientados dentro das quatro linhas pelo capitão e principal jogador Franz Beckenbauer, também conhecido como o "Kaiser", tentavam se recuperar do golpe aos poucos, tendo como apoio 80% da massa. Um pouco antes do empate alemão, a tranqüilidade excessiva holandesa começava a prejudicar a própria equipe. O meio de campo Van Hanegen mostrava isso, agredindo Gerd Müller com um empurrão violento jogando-o ao chão, nas costas de Jack Taylor, mas recebia cartão amarelo após ser dedurado pelo bandeirinha uruguaio Ramón Barreto. Aos 25 minutos de jogo, pênalti de Jansen em Holzenbein quando este tentava se infiltrar pela área via ponta esquerda. Paul Breitner, o batedor oficial da Alemanha Ocidental converte em gol e a história do jogo então mudaria. A armadilha do técnico Helmut Shoen, discípulo de Sepp Herberger, o técnico alemão campeão mundial de 1954, começava a funcionar.

 

Berti Vogts, que viria a ser o técnico da Alemanha na Copa de 1994, chuta à queima-roupa e perde um gol feito, evitado pela excelente defesa de Jongbloed. Minutos depois a defesa laranja, num instante de desatenção, permitia a Gerd Müller, aos 42 minutos ainda do primeiro tempo desempatar o jogo após um passe vindo da direita, chutando de perto da marca do pênalti. Krol, que fazia marcação ao centroavante no lance, não consegue evitar o arremate. A rápida jogada pela direita e o bom posicionamento do atacante alemão colocam a Alemanha Ocidental em vantagem no placar: Alemanha 2 a 1. E assim os germânicos vão para o vestiário no intervalo com vantagem parcial no placar, dando-lhes um pouco mais de oxigênio para respirar com calma.

 

 

 

NOTA IMPORTANTE: logo após o soar do apito indicando o fim do primeiro tempo, Van Hanegem, que estava com a bola, chuta  com força na direção do juiz, que se não se esquivasse a tempo teria levado uma bela carimbada. Irritado com o fato, Jack Taylor se dirige a Van Hanegem, chama-lhe a atenção discretamente, mas com firmeza. Cruyff se envolve no lance para argumentar e defender o companheiro, embora o árbitro não quer dar continuidade à discussão, mas o capitão holandês insiste. Provavelmente falara ao árbitro inglês algo que não se conseguiu registrar, mas que certamente o aborreceu profundamente, então Jack Taylor apresenta-lhe o cartão amarelo nesse intervalo entre o primeiro tempo e o segundo, fato raro no futebol.

 

Continuando. No segundo tempo, as coisas começavam a mudar. Pode ser que Michels tenha dado uma dura na equipe laranja, pois a equipe tentava se reorganizar na partida, atacava constantemente criando inúmeras oportunidades de gol, mas a bola negava-se a entrar. Breitner salva um gol quase em cima da linha, após um escanteio cobrado por Johnny Rep.

O incansável ataque do carrossel dá muito trabalho ao grande goleiro Sepp Maier, mas o alemão estava impressionante na partida. O artilheiro Gerd Müller, em posição duvidosa e difícil de analisar o impedimento, ainda faria um gol anulado por Jack Taylor.

Num raro minuto de desatenção da defesa holandesa, Holzenbein contra-ataca pela esquerda e sofre novo pênalti cometido por Jansen, a mesmíssima jogada do primeiro tempo quando se deu o empate, mas dessa vez o juiz inglês Jack Taylor não marca nada.

E Maier, cuja atuação foi irrepreensível, quase se contundia com uma entrada de Cruyff e se irritava com outra entrada de Neeskens, mas foi acalmado pelo maestro Franz Beckenbauer, que então detinha o controle do jogo. Divididas duras, mas não desleais, e sim desesperadoras por parte dos holandeses, que tentavam a todo custo, até a última gota de suor pelo menos empatar a partida. Mas a bola só dizia não para as redes alemãs. A partida mais dramática disputada pela Seleção Holandesa até os dias de hoje teve um final infeliz para eles.

 

Talvez a Holanda mereceu o empate pelo futebol que apresentou no segundo tempo. Nas seis partidas anteriores a esta final a Holanda cumpriu sua tarefa com competência de sobra, futebol verdadeiro, arrasando todos os adversários que vinham pela frente, mas por incrível que pareça, nesta partida a vitória parcial no primeiro tempo lhes tirou a concentração, algo até então inimaginável até mesmo para o grande Cruyff, que sempre foi totalmente seguro de si e senhor de todas as partidas disputadas pelo seu país. Talvez a Alemanha chegara à final contando com a caprichosa ajuda da sorte, sem dúvida um fator necessário a toda equipe que aspira à vitória. Mas não devemos esquecer que desde 1954 a Alemanha já era uma potência no futebol, e era sócia do clube dos campeões mundiais, junto com o Uruguai, Itália, Brasil e Inglaterra. Buscava o título desde 1966 quando foi vice-campeã e em 1970 quando conquistou o quarto lugar, sempre com Franz Beckenbauer na equipe e alguns remanescentes de 1970, um deles também Gerd Müller. E o Kaiser não admitia  novamente nadar e morrer na praia. A Holanda não perdeu a final para uma seleção qualquer.

Mas o Futebol Total mostrado nessa Copa do Mundo foi sem dúvida apresentado pela fantástica Laranja Mecânica, ou Carrossel Holandês, como preferirem definir a seleção holandesa, a última das grandes seleções reveladas num Mundial. A Holanda do Mundial 1974 nos faz concluir que ganhar taças e campeonatos não são necessariamente essenciais para uma seleção deixar seu nome gravado em ouro na história do futebol.

 

 

 

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